Cada casa é um caso:  um registro das casas antigas de BH

Cada casa é um caso: um registro das casas antigas de BH

Na semana passada, quem passou pelo bairro de Lourdes, em Belo Horizonte, talvez tenha visto um grupo de quase 50 pessoas andando pela ruas, olhando para o alto e com câmeras fotográficas nas mãos – e podia ser desde uma Cânon 60d até um aparelho celular. Se alguém viu a cena e ficou curioso, explicamos aqui: elas estavam procurando casas antigas – as poucas que restaram na cidade – para fotografar.

A caminhada #fotografa_bh, que teve a primeira edição em maio, é uma proposta de Ivan Araújo, arquiteto, fotógrafo e criador da página Casas de Belo Horizonte, projeto que se propõe justamente a registrar, em perfis nas redes sociais, casas antigas da capital mineira. E a página de Ivan nasceu justamente assim: de caminhadas despretensiosas do fotógrafo – na maioria das vezes solitárias, mas agora também em grupo – por alguns bairros da cidade.

Esta casa fica na rua Pium-Í, bairro Carmo.

Esta casa fica na rua Pium-Í, bairro Carmo.

Comecei a publicar estas fotografias de casas antigas na minha página pessoal, e percebi que o envolvimento das pessoas era grande. Um amigo comentava que já morou lá, outro conhecia alguma história legal da casa. Então passei a reunir material e fiz uma página só para divulgar estas fotos e histórias”, explica Ivan, que em agosto comemora um ano de projeto.

Histórias da arquitetura de BH

Ao todo, já são 74 casas publicadas pelo fotógrafo, o que faz de seu projeto uma verdadeira viagem no tempo e na história arquitetônica da cidade. A casa mais antiga é de 1897, “a mesma idade de Belo Horizonte”, como lembra Ivan, e fica na Rua Aimorés, no Funcionários; já a mais recente é de 1953, projeto do arquiteto modernista Raphael Hardy Filho, que foi aluno de uma das primeiras turmas da Escola de Arquitetura da UFMG, fundada em 1930.

essa residência de 1897 carrega a história dos primeiros anos da cidade. São inúmeros detalhes que merecem atenção, como as estátuas sobre a platibanda, os portões de ferro e as estrelas usadas como ornamentos. Em suas pesquisas, Ivan encontrou um documento datado de 1903 que evidenciava o projeto de expansão da edificação, autoria de Maurício Bernasconi para o Major Antônio Augusto de Souza Paraíso.

Essa residência de 1897 carrega a história dos primeiros anos da cidade. São inúmeros detalhes que merecem atenção, como as estátuas sobre a platibanda, os portões de ferro e as estrelas usadas como ornamentos. 

Em suas pesquisas, Ivan encontrou um documento datado de 1903 que evidenciava o projeto de expansão da edificação, autoria de Maurício Bernasconi para o Major Antônio Augusto de Souza Paraíso.

Em suas pesquisas, Ivan encontrou um documento datado de 1903 que evidenciava o projeto de expansão da edificação, autoria de Maurício Bernasconi para o Major Antônio Augusto de Souza Paraíso.

Entre um ano e outro, uma grande variedade de estilos: o neoclássico e eclético dos primeiros anos; o art déco, em grande parte resultado da colonização italiana na primeira metade do século XX; o modernismo de Oscar Niemeyer, que projetou inúmeras casas na cidade; entre outros.

Esta edificação fica na Rua Lopes Trovão, no bairro Floresta

Esta edificação fica na Rua Lopes Trovão, no bairro Floresta

E às vezes mais de um estilo pode ser visto na mesma edificação. É o que acontece com “a casa preferida da página”, que recebeu mais de mil curtidas e teve 305 compartilhamentos. Trata-se do “palacete Falci”, construído na Avenida Bias Fortes durante a década de 1920, em projeto assinado pelo arquiteto mineiro Luiz Signorelli. Talvez o que mais chame atenção nesta casa, mais do que a suntuosidade da mansão, é o quanto ela está preservada. “A edificação é um exemplo significativo de conservação e cuidado com o patrimônio e arquitetura dos primeiros anos da cidade”, explica Ivan.

O Palacete Falci na Avenida Bias Fortes, no Lourdes.

O Palacete Falci representa o estilo eclético do final da década de 1920 e é projeto de Luiz Signorelli. A edificação é um exemplo significativo de conservação e cuidado com o patrimônio e arquitetura dos primeiros anos da cidade.

“Uma casa a menos na cidade”: especulação e abandono

Mas nem todas as casas publicadas por Ivan estão em boa situação. Algumas, apesar de tombadas, encontram-se em condição bastante crítica, a exemplo do “Castelinho da Floresta”, casa famosa por ter abrigado o antigo Hotel Palladium. “A edificação é um dos poucos exemplares do estilo art nouveau da cidade, e há muitos anos encontra-se em estado total de abandono”, diz o arquiteto.

O "Castelinho da Floresta" e antigo Hotel Palladium, essa casa é projeto do português Manoel Ferreira Tunes e do italiano Luiz Olivieri, que abriu o primeiro escritório de arquitetura de BH, em 1897. A construção é datada de 1918 e é um dos poucos exemplares do estilo Art Nouveau na cidade.

O “Castelinho da Floresta” e antigo Hotel Palladium, essa casa é projeto do português Manoel Ferreira Tunes e do italiano Luiz Olivieri, que abriu o primeiro escritório de arquitetura de BH, em 1897. A construção é datada de 1918 e é um dos poucos exemplares do estilo Art Nouveau na cidade.

E há também fotos de casas que nem existem mais, como é o caso de uma pequena edificação de dois pavimentos que ficava na rua Bernardo Guimarães. Ela foi fotografada alguns meses antes de ser demolida, em abril, quando Ivan publicou a foto em sua página com o comentário provocativo: “uma casa a menos na cidade”.

casa belo horizonte arquitetura

Essa casa de dois pavimentos apresentava linhas sóbrias e venezianas brancas trabalhadas em madeira. Na parte mais alta da platibanda era possível observar uma ornamentação triangular feita de estuque e as grades das janelas e portões mostravam uma mesma unidade de formas e desenhos.

Embora não tenha criado o projeto com um fim político, e sim informativo e até mesmo afetivo, o fotógrafo reconhece que a sua atuação muitas vezes promove um debate – inclusive na própria página – sobre especulação imobiliária, motivo principal da demolição de muitas construções históricas. “Como arquiteto, não posso ficar alheio a essa situação de pressão para demolir essas edificações. Não criei o projeto com intenção de protesto, mas fico feliz de promover este debate, pois de modo geral Belo Horizonte não preserva sua arquitetura”, finaliza.

Colaboração dos seguidores

Além de fotógrafo e arquiteto, Ivan é também um curioso. Por isso não se limita apenas a publicar as suas fotografias. Cada vez mais íntimo de dossiês de tombamento e teses sobre arquitetura mineira, o fotógrafo costuma dar pequenas aulas sobre cada casa que divulga, seja chamando atenção para um detalhe arquitetônico, informando sobre os autores da construção ou relatando a história do lugar.

Nos últimos meses, com o crescimento do projeto, que alcançou mais de 6.000 seguidores no Facebook e 2.500 no Instagram, Ivan conta também com a colaboração dos seguidores. “Muitas vezes eu não tenho muitas informações, mas mesmo assim publico a foto e os leitores ajudam a identificar o período, o arquiteto ou mesmo contando histórias daquela casa. O público é variado porque o tema é de interesse amplo, e as pessoas colaboram de diferentes maneiras. Tiveram casos de pessoas mandando fotos de suas próprias residências, pedindo mais informação ou ‘fazendo encomendas’ de casas pra eu fotografar”, explica.

Construída em 1929, os traços imponentes são do arquiteto mineiro Luiz Signorelli, que foi um dos fundadores e o primeiro diretor da Escola de Arquitetura da UFMG.

Construída em 1929, os traços imponentes são do arquiteto mineiro Luiz Signorelli, que foi um dos fundadores e o primeiro diretor da Escola de Arquitetura da UFMG.

Foi inclusive um seguidor da página que nos alertou, com razão, que uma das casas do projeto, a mansão que fica em frente do Minas Tênis Clube, na Rua da Bahia, abrigou a edição de 2003 da Casa Cor de Minas Gerais.

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Em 2017, o fotógrafo pretende lançar um livro com uma seleção de histórias e imagens. Para acompanhar o Casas de Belo Horizonte, siga o projeto no Instagram (@casasdebh) e no Facebook (http://www.casasdebh.com).

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2 Comentários em "Cada casa é um caso: um registro das casas antigas de BH"

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Raquel
Visitante

O Ivan é muito talentoso! Parabéns pela bela iniciativa!

José Murilo Procópio de Carvslho
Visitante
José Murilo Procópio de Carvslho

Parabéns pela iniciativa. Verdadeiramente precisamos resgatar Belo Horizonte. No que puder, quero colaborar com o projeto.

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